segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Viajar por Paris

Paris é uma cidade incrível, e perfeita para aproveitar durante o dia. Tem tudo o que se pode esperar de uma grande metrópole: a grande Paris tem 10 milhões de habitantes, e você encontra o comércio funcionando até tarde, grandes promoções (é possível comprar botas de inverno a 10 euros do final de fevereiro ao começo de março, eu trouxe de lá praticamente uma sapataria....), feiras de artesanato, roupas, legumes e tudo mais, cinemas, restaurantes, cafés, e um monte de outras coisas encontráveis nas cidades grandes. Tem tudo o que se pode esperar de uma cidade turística: só de atrações imperdíveis, podemos contar umas cem; mesmo que você vá a um lugar diferente todo dia, em um mês ainda haverá muita coisa para ser vista. Tem tudo de uma cidade artística: além do Museu do Louvre (dois dias pelos menos para poder conhecer tudo. Após as 18 horas, o preço diminui, mas isso só vale a pena se você for conhecer o Louvre a prestação. O bom mesmo é chegar cedo e passar o dia, e ainda assim você não verá tudo num dia só...), tem o museu Picasso, com várias obras do artista, e a história de sua vida e de suas criações, o Museu D'Orsay, com algumas preciosidades de Matisse, Picasso e Miró e o artístico-histórico Museu Carnavalet, perto do museu Picasso, que conta a história da cidade passando pela paris de todos os períodos até a paris dos anos 20, com direito a visitar o quarto de Marcel Proust. Aliás, é tanto museu que eu encontrei até um deles dedicado exclusivamente à magica, no caminho entre o quartier St. Paul e o Marais.

Todos estes museus são bem pertinho uns dos outros, mas você precisará de pelos menos dois dias para visitar tudo, se passear por um de manhã e outro à tarde. E atenção aos horários: o Museu Picasso fecha nas terças feiras, e a maioria só fica aberta até às 17h.




Agora, para conhecer um pouco mais sobre a cidade, nada melhor do que usar um recurso mais do que parisiense: um museu. O museu da cidade de paris conta sua história, com direito a maquete, numerações antigas, reproduções de salões de cada século (uma casa na época de luís XIV, o palácio na época de maria antonieta e assim por diante), uma reprodução da tomada da bastilha e até o quarto original de Marcel Proust, onde ele escreveu boa parte de À la recherche du temps perdu!!!!




Além disso, andar pelas ruas do Marais e do Quartier St. Paul já é completamente artístico: o bairro é um museu a céu aberto, com direito a váááárias galerias de arte, nas quais você pode entrar para olhar as exposições, e vários brechós.






Tem até um museu dedicado à mágica!!! O museu da curiosidade e da magia mostra truques, tem reproduções de magos em tamanho natural, fotos e apresentação ao vivo.




Para ninguém se perder no quartier st. paul, aí vai um mapa das galerias, ateliers e outros espaços artísticos da região, que está ilustrado em uma das estaçoes do metrô.





Paris tem também tudo o que se pode imaginar de uma cidade histórica: a

maioria dos prédios remete à renascença, e em vários deles existem placas contando os acontecimentos relativos à história da cidade que ocorreram naquele local. Em outros locais, há placas informando que ali morou um grande escritor ou artista. Assim, você conhece a história de paris simplesmente de andar pela rua.

No final das contas, não é preciso estar em outro local: se a pessoa gosta de uma programação cultural, três meses em paris valem por uma viajem a um país inteiro.










segunda-feira, 26 de julho de 2010

Estrada de palavras

Como também podemos viajar num livro, resolvi publicar aqui minha lista de escritores malditos. São histórias pessoais de grandes escritores que viajaram por aí sem saber direito para onde estavam indo.
Henry Miller - Trópico de Câncer: uma viagem pela paris dos anos 20
Jack Kerouac - Pé na estrada (On the road): a geração beat cruza osEUA na década de 1950
Anais Nïn - Pequenos Pássaros: amante de henry miller, escreveu histórias eróticas e manteve um diário por 50 anos, enquanto ia de um lugar para outro e recebia todo mundo em casa.
Walter Benjamin - Haxixe: um dos maiores pensadores do século XX, viajou em uma experiência com a maconha antes de viajar para a França fugindo do nazismo e depois viajar para a morte, cometendo suicídio para não ser levado a um campo de concentração.
Charles Buckcowiski - Misto Quente: viajou para cima e para baixo na companhia da máquina de escrever e da bebida. Na maioria das vezes, acordava sem saber direito aonde.
John Fante - Pergunte ao pó: embora não seja biográfico, tem muitíssimo do autor na história beat de um jovem tentando a sorte em um hotel barato de Los Angeles.
Francis Scott Fitzgerald - Suave é a noite (Tender is the night): o que Henry Miller aprontou em Paris, Fitzgerald aprontou na Riviera Francesa. Aliás, os dois eram amigos.
Álvares de Azevedo - Noite na taverna: uma viagem pelas situações mais esdrúxulas no romantismo do século XIX.
Fernando Sabino - Encontro das águas: uma viagem para Manaus, em que ele não tem a mínima idéia de porque foi até lá.


domingo, 27 de junho de 2010

Baladas de Amsterdã

Devemos tomar cuidado em qualquer lugar do mundo ao pedir indicação de balada, ou corremos o risco de parar em baladas para turista ver. Eu adoro música eletrônica, e era o que queria ouvir. Mas quando pedi indicação para o rapaz do albergue onde estava, ele me deu o nome de dois lugares que depois eu fui descobrir que não era bem oque eu queria. Como uma delas não era muito longe, no centro noturno da cidade, fui para lá. Quando encontrei o lugar, depois de perguntar um pouco, vi uma fila de casais de turistas cinquentões na
porta, e o lugar tocava música latina! Eu gosto de música latina, é claro, sou latina com muito orgulho, mas não música latina de turista... Para eles devia ser uma grande novidade. Perguntei ao segurança se não havia ali nenhum lugar que tocasse eletrônica, tecno, electro, house, qualquer coisa. Ele me indicou a balada de trás no mesmo quarteirão, e foi aí que eu fiz uma das baladas mais legais da viajem. O lugar tinha um palco com telefones sem fio e perucas, que as pessoas podiam subir e usar, o banheiro tinha desodorantes e maquiagem para você retocar o visual, e um carinha vendendo balas e chicletes na porta.

O som era incrível (electro, techouse e break) e no telão passavam imagens psicodélicas misturadas com arranjos de arte gráfica (do tipo várias figurtas psicodélicas circulando por um cérebro estilizado). O lugar encheu e a balada durou até as 8 da manhã. Depois de muito dançar, acabei fazendo amizade com o cara do chiclete, que adorou meu colar de lua porque era eclipse naquele dia (?!) - não, ele não estava me cantando porque estava na cara que era gay - e também com a DJ e com um trio de amigos que tinha acabado de vir de Londres, e me perguntava a toda hora sobre o Brasil.
PS: PARA TODOS OS QUE ME PERGUNTARAM O ENDEREÇO DA BALADA, ELA SE CHAMA STUDIO 80 E FICA NA Rembrandtplein, 17, Amsterdam (aqui vai o site: http://www.studio-80.nl/) OUTRAS BALADAS LEGAIS SÃO O SUGAR FACTORY ( Lijnbaansgracht 238 1017 PH Amsterdam, Nederland) E O CLUB 11 (Oosterdokskade 5, 1011 Amsterdam, Nederland‎ - 020 6255999‎), QUE ALÉM DE MÚSICA ELETRÔNICA TÊM TEATRO E RESTAURANTE. O ODEON também é bacana paraquem gosta de balada gay. A melhor região para procurar baladas é a old west area, que tem vááárias.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Em Sorocaba

Para uma viagem ser legal, não precisa ser nos cafundós do Judas. Pode ser logo ali, ao lado. Foi o que aconteceu comigo quando fui para Sorocaba, depois de terminar minha dissertação de mestrado. Aliás, terminar minha dissertação de mestrado foi uma tortura. Eu estava atrasadíssima e sem muita ajuda de orientador, até que chegou um momento, já na prorrogação, em que eu tinha uma semana para terminar grande parte da análise dos dados, escrever toda a conclusão e entregar o trabalho. Algo como 60 páginas.Corria de um lado para o outro, entre o trabalho e e Universidade, e um amigo me ligava de 5 em 5 minutos:

- Vem prá Sorocaba, todo o pessoal que a gente conheceu na rave tá aqui, na casa de um amigo meu, tá superlegal!

- Eu não posso, tenho que entregar minha dissetação.

- Dá um jeito, vai.

Na sexta feira, eu ainda tinha a conclusão para fazer e precisava revisar todo o trabalho, de modo que ele ficasse pronto no sábado de manhã, para ser encadernado no final de semana e depositado na segunda feira. Atravessei a noite na universidade, na sala da minha orientadora, escrevendo e depois procurando erros como se procura uma agulha num palheiro. Terminei às sete da manhã, quando me convenci de que, afinal, o trabalho estava bom, e de que mesmo que não estivesse não poderia fazer mais nada. Estava tão cansada que errei duas vezes o caminho até a gráfica ali do lado. Mas quando cheguei em casa, simplesmente não conseguia dormir. A adrenalina da preocupação tinha me deixado completamente acordada. Lembrei da balada de Sorocaba. Eu é que não vou ficar aqui surtando de esperar o sono chegar. Peguei o carro, tirei vinte reais no banco e lá me fui.
Quando cheguei, a balada na casa do Tatá ja era eterna há dois dias. E meu amigo:

-Tatiiiiiiiii!!!!!!! Você aqui!!!!!

As pessoas iam para outras casas, depois voltavam, de modo que os presentes às vezes mudavam, mas a festa continuava. Conheci todo mundo, ri, dancei, e depois fui dormir, duas horinhas, antes de ir para uma rave com a galera. Quando cheguei na porta da rave, lembrei que não tinha comprado convite nem tirado dinheiro. As pessoas já tinham entrado e achei que nem saberia ir dali a um banco, que provavelmente estaria fechado àquela hora. Fiquei perto da fila, pensando no que fazer (pedir uma caixinha para todo mundo que eu tinha conhecido, pular o muro, ir pra casa, dormir no carro), quando Pati, uma amiga que estava na fila, me encontra:

-Tatiiiiiiiii!!!!!!! Você aqui!!!!!

A gente começou a conversar, contei meu problema, ela fala que de repente tem mais amigos que viriam, a Val vinha, porque depois ela ia voltar para Zurique e ficar por lá de vez. Esqueci completamente da entrada da balada.

- A Val vai embora???? Ela vai vir pra festa? Quando ela chega?

Fomos conversando, ela me contando a conversa telefônica com a Val, e a fila foi andando sem que eu percebesse. Quando dei por mim, simplesmente estava dentro da tenda usada para revistar as bolsas. Eu tinha entredo na festa sem nem perceber! Foi a Pati quem me avisou:

- Você entrou, coloca a blusa para eles não verem que você está sem pulseira!

Foi aí que olhei em volta e me dei conta. Coloquei a blusa e dei minha mochila para a revista, achando ter a bolsa revistada a melhor coisa do mundo: a preocupação dos funcionários não era o meu braço. Lá dentro, encontrei, além dos meus amigos, alguns com quem eu não tinha combinado e outros amigos que eu não via há muito tempo - 5, 7, 8 anos. Também meu primo. Nâo encontrei a Val. E a Pati acabou chegando à conclusão de que ela não veio. Eu dançava sem parar pensando e falando para quem quisesse ouvir:

- Terminei! Consegui! Terminei.

Afinal, qualquer um que já fez mestrado ou doutorado sabe que quando você se mete numa empreitada dessas, os amigos, a família, o namorado e até o cachorro fazem a pesquisa também.

- Mãe, lê isso e vê sem não tem erro de português.

- Pati, a minha orientadora sumiu, o que é que eu faço?

Eu também olhava pros lados e via um pessoalzinho feliz assim, digamos, demais. Algumas pessoas estavam felizes por estarem chapadas e de novo eu pensava: "Essas pessoas estão felizes com a fantasia, eu estou feliz com a realidade. TERMINEI!!!!!". E a festa estava o máximo, teve até uma hora, ao som de Chaos, que abriram um círculo no meio da pista e a rave inteira dançou junta.
O resultado disso é que curti a festa até as seis da tarde do domingo de cara lavada, sem tomar nem mesmo uma cervejinha, só água, e sem sentir o mínimo sono. Ou seja, devia ter uma quantidade imensa de adrenalina no meu corpo só com o stress de entregar aquela dissertação. Quando fomos embora, e eu ia passar no posto para colocar combustível, vi que meu cartão do banco tinha sumido. Lembrei então que as coisas da minha bolsa tinham caído na festa, apanhei tudo, mas meu cartão podia ter ficado. Eu e meus amigos fizemos as contas do combustível e do pedágio. Com os 20 reais que tinham sobrado para eles, chegávamos até Campinas, mas São Paulo não dava. Decidi que em Campinas eu pediria dinheiro para a minha mãe, que mora lá. Cheguei na casa da mamãe, sem avisar, meia noite.

- Eu preciso de 30 reais para voltar para São Paulo, porque perdi o cartão do banco na festa.

Minha mãe me olhou com a maior calma do mundo.

- Pode convidar seus amigos para jantar. Eu vou interditar você.

-Ai, mãe foi o impulso de comemorar, né? Eu entreguei a dissertação, fica feliz!!!!!

Minha mãe me deu o dinheiro e voltou a dormir. Jantamos, fomos embora e eu resolvi dormir em Jundiaí, onde moravam meus amigos. O sono começava a bater, era melhor não dirigir sozinha até São Paulo. Afinal, eu sou uma garota responsável.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

O relógio de Praga

O relógio de Praga

Praga é realmente uma das cidades mais bonitas da Europa. Para mim, o único defeito da cidade é ser excessivamente turística, pois todo lugar que tem o turismo como principal atividade me parece um pouco artificial, um pouco fabricado. Agora, isso não tira a beleza e a excentricidade de uma cidade em que boa parte dos prédios pertence ao século XII e boa parte das suas mulheres tem duas cores no cabelo. É serio, você vê várias mulheres em Praga de cabelos loiros com uma faixa preta ou rosa, ou luzes vermelhas, por exemplo. O lugar forma, junto com Amsterdã, os dois pontos turísticos da Europa mais visitados pelos próprios europeus: Amsterdã é para os jovens, Praga para os enamorados. É incrível a quantidade de casais em lua de mel por lá, e com razão, pois a cidade é linda.

Para mim, jovem e solteira, a diversão foi conhecer as histórias de cada espaço, pois num lugar onde tudo tem mil anos cada pedra pode ser narrada. Explorei a casa de Kafka, a ponte do castelo – o castelo de Praga é o maior castelo do mundo na atualidade – e a vista de cima da igreja. Fiz também uma caminhada. Se você fala inglês, precisa fazer uma, é um jeito diferente e muito bacana de conhecer a cidade: os guias contam várias histórias diferentes sobre cada lugar, e existem caminhadas de todos os tipos – escritores de Praga, histórias medievais, descobertas de Praga, Praga histórica. Fiz uma à noite, sobre as lendas de terror medievais, e descobri, por exemplo, que na Idade Média acreditavam que uma banshee morava na igreja das duas torres, gritando durante as noites pelo noivo que abandonou na terra e que trabalhava na igreja. Foi por causa de seu grito que uma das torres quebrou, e foi consertada de um modo diferente (repare uma janela a mais na torre da esquerda). Mas o mais incrível de todas as excentricidades da cidade é mesmo o relógio astrológico, construído no século X em plena igreja da praça central! (foto 0896) Esta é uma outra igreja bem próxima à anterior.
Aliás, a cidade tem umas quatro igrejas só no centro, e é emocionante ver ouvir todos os sinos badalando juntos em meio àquela paisagem – você se sente na idade média...
Voltando ao relógio: ele tem duas partes, uma representando os signos
e outra as casas do zodíaco, e ninguém, ninguém mesmo, sabe como ele foi parar lá, o que mede ou como funciona.











A teoria mais aceita era a de que ele era utilizado por alquimistas na Idade Média, que eram também os responsáveis por produzir os vitrais das igrejas. Posteriormente, em Dijon, meu padrinho, que leciona física na Universidade de Dijon, contou que atualmente os físicos sabem que as diferenças de cores são produzidas por nanopartículas, que os alquimistas sabiam manipular muito bem, embora não conhecessem sua estrutura. Para que será que servia o relógio astrológico?

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Porto Alegre e o Rio Guaíba

Quando fui a Porto Alegre num congresso, em 2003, tudo o que queria, além de apresentar meu trabalho, era aproveitar minha primeira viagem sozinha. Como em POA não tem albergue (uma pena) hospedei-me num hotel muito bacana e não muito caro, que ficava num clube (http://www.farrapos.org.br/hotel.htm Como todos os hotéis estavam lotados e não tinha mais lugar, fiz um acordo com a gerente de ficar num quarto numa casa no clube (muito bem estruturada) por 15 reais a diária. Quarto e banheiro só prá mim. Uma pechincha, ao lado da PUC-RS, onde seria o Congresso. Depois mudei-me para a casa da minha tia. Uns colegas de faculdade iriam também, mas como eram pessoas meio fofoqueiras a algo moralistas, acabei prefirindo ficar sozinha. Só ouvi de um amigo, que estava junto:

- Mas você tem que sair com a gente, porque eu tô ligado que você é das minhas...

Peguei um ônibus para o centro e percorri toda a cidade, fiz compras, conheci o centro passei num posto turístico e peguei o ótimo guia, com pontos para conhecer e baladas para a noite. Estava tendo bienal, ao lado da Usina do Gasômetro (rua de mesmo nome) e eu fui visitar (você pode pegar os pontos turísticos em http://www.inf.ufrgs.br/turismo/poa/lista.html). O Gasômetro é uma usina desativada que virou museu, na frente do rio Guaíba. Todo mundo vai lá, ver o pôr do sol. Na bienal, fiz amizade com umas meninas de brasília que foram para o congresso, depois elas foram embora e eu fui ver o pôr do sol. Ao meu lado vários grupos tocando violão, eu já tinha (ops, a vovó também lê isso!) bebido umas cervejas e fiquei embasbacada com a paisagem. Comecei desesperadamente a fotografar, gastei um filme de 36 poses, depois fiquei horas paralizada e por último comecei a escrever, tentando descrever a cena e o que eu estava sentindo. Assim ficou:


"Mário Quintana Só podia ternascido em proto alegre. O sol do gasômetrorefletindo sobre as águas azuis do Rio Guaíba é pura poesia sobre o doce verde da outra margem. O sol se recolhe para seu descanso noturno, assistido por dezenas de pessoas sentadas na grama já batida, sensíveis o suficiente Para não se incomodar em sujar a roupa, em parar um minuto no intenso agito da cidade, para apreciar o espetáculo. Esses poucos custos não são nada comparados ao explendor desta experiência. Aí está o mundo, apenas para nós felizardos que podem observar e sentir a calma de uma descida lenta, amarela, rosada anil. De todas as cores. E de todos os climas, já que ora esquenta, ora esfria, ao balanço da disputa entre o sol e o vento. A mata na outra margem, que serve de leito ao sol como uma mãe qu delicadamente recolhe seu filho nos braços, aos poucos mostra também suas formas de cerrado, acompanhada de dezenas de ássaros que riscam o céu, saudando o fim do dia." (10/2003)

Quando fui pegar o ônibus de volta, tinha um sorriso de felicidade estampado no rosto, estava me sentindo livre como nunca. E encontrei meus colegas:

- Nossa Tati, que cara de felicidade é essa?

E o outro:

- Tá na cara que ela encontrou alguém...

Eu nem sabia o que responder. Com aquela absoluta falta de sensibilidade, será que eles entenderiam o efeito que uma cervejinha e um pôr do sol é capaz de provocar??? Por que é que a gente só pode ser feliz se estiver encontrado uma muleta para se encostar???? Me poupe. E também não estava a fim de raciocinar muito naquele momento, estragaria meu estado de espírito.

- Encontrei o gasômetro, vocês já foram lá?

-Já.

Eles me olharam sem entender, o que teria o gasômetro de mais? Eu peguei o ônibus, feliz da vida por não ter ido com eles. Ir a Porto Alegre a não se maravilhar com o pôr do sol do Gasômetro é como ir a Roma e não conhecer o Coliseu. O Papa, cá entre nós, é um chato e eu dispenso.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Um dia em Budapeste (em homenagem à net-amiga Francine)

A Francine me perguntou se Budapeste valia a pena. Avaliem vocês mesmos (vc também, Francine!) e comentem o que acham...

Chegamos a Budapeste às sete horas da manhã. A vovó estava supercansada, pois não tinha dormido tão bem na viagem de trem. Pegamos uma cabine com cama para quatro pessoas: a reserva não era tão cara (20 euros contra 100 de uma cabine dupla sozinha e 8 euros de uma com seis pessoas) e ficava mais confortável para ela, mas mesmo assim ela não consegue dormir bem em trens. Como eu tinha feito pesquisa de hotéis antes de viajar e estava com os preços no guia que preparei, recusei quando uma moça me abordou na estação, oferecendo hotéis a 100 euros a diária. Disse que tinha pesquisado alguns a 60 euros e não pagaria aquele valor. Ela então me levou até uma cabine de turismo na estação de trem, “lembrando” que havia um bom hotel em promoção naquele valor (O Matyas, que você pode achar no ótimo site http://www.save-on-budapesthotels.com/) . Se um hotel vai custar a mesma coisa que os albergues que pesquisei, lá vamos nós, porque vai ficar confortável para a vovó, economizamos com um bom café da manhã e ainda por cima o transporte do hotel para a estação e vice-versa está incluído. Assim, ficamos bem próximas à ponte do Danúbio.

A ponte divide a parte Buda e a parte Peste da cidade. Como chegamos às oito horas no hotel, fizemos o check-in e fomos direto para o melhor café da manhã da viagem: além da comida típica européia – croissant, nutella, muitos queijos, havia alguns pratos típicos da Hungria, como algumas espécies de bolo com farinha integral e especiarias que eram uma delícia. O quarto também era um dos melhores da viagem, com uma ducha maravilhosa que eu tomei enquanto a vovó foi dormir. Afinal, estávamos a quarenta dias viajando e já havíamos passado por 10 cidades: o cansaço começava a bater.


Enquanto a vovó dormia, andei pela cidade. Ela era cheia de galerias, acho que iam dar no metrô. Conversei com as pessoas e descobri que a Cidadela era o melhor lugar para conhecer por lá. A vovó já não estava com tanto pique para ir de ônibus, fiquei com medo que ela dormisse no city-tour e preferi fazer por uma agência.



Descolei então uma outra agência de viagens perto do hotel para fazer um passeio, depois fui andar pela ponte do Danúbio, onde descobri um monumento cheio de escadarias que terminava num mirante. O lugar era um verdadeiro labirinto, cheio de árvores floridas e colunas dóricas, com pessoas andando e namorando por ali. Subi no mirante para olhar a cidade.
De lá, eu via o parlamento. Tanto o parlamento quanto as outras construções da cidade, são um misto de arquitetura clássica européia e arquitetura bizantina, dando à paisagem um jeito único.
Uma outra coisa me chamou a atenção: algumas partes da cidade pareciam pouco conservadas, mas também não estavam destruídas. Davam apenas a impressão de que tudo era muito velho. Eu não entendia bem o porque, já que as construções de Paris ou Praga também possuem séculos e estão conservadas. Foi apenas quando fui a Cuba e vi o mesmo “estilo” dos prédios que compreendi que o regime de contenção dos recursos do período comunista havia durante bastante tempo diminuído o investimento na conservação dos prédios. Ainda assim, boa parte da cidade estava conservada e a arquitetura se erguia imponente. Voltei para o hotel ansiosa para conhecer a Cidadela. Sou muito mais as ruínas de um castelo antigo do que o luxo de Versalhes, então realmente a cidadela respondeu às minhas expectativas: cheia de curvas, de galerias por onde você pode olhar a cidade, onde é possível percorrer um monte de caminhos.
Ela é na verdade a fortificação murada de um castelo húngaro, que atualmente é museu. Infelizmente, o museu estava fechado naquele dia, pois estava em reforma durante uma semana, mas ficamos sabendo que ele contava a história do castelo, com armas medievais, fardas reais e tudo mais que um conto de dragão e princesa tem direito.

Do outro lado, existe uma parte do castelo que ainda funciona e de onde nós vimos até a troca da guarda. Em todo o espaço da cidadela, existem algumas pessoas vestidas com roupas medievais que cultivam gaviões e se apresentam para os turistas
Passeamos o dia inteiro, a vovó de vez em quando sentava nos bancos para descansar e olhar a vista, enquanto eu percorria a cidadela de um lado para o outro, tirando fotos de todos os lugares. Depois voltamos com a excursão até o centro, arrumamos um restaurante próximo e resolvemos voltar andando para o hotel, assim conhecíamos melhor a cidade. Quando chegamos na rua que beirava o rio, descobrimos a beleza de Budapeste à noite: a cidade brilha como Paris, mas tem uma vista cheia de cúpulas e árvores que me faz pensar em As mil e uma noites. Sentamos num banco à margem do Danúbio, conversando até quase à meia noite: o melhor mesmo é não voltar.